O Ministério da Fazenda iniciou negociações com instituições financeiras para criar um novo programa de renegociação de dívidas voltado a famílias que enfrentam dificuldades para quitar seus débitos.
A proposta, que vem sendo chamada informalmente de “Novo Desenrola”, surge em um cenário de endividamento recorde no país: segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), 80,2% das famílias tinham algum tipo de dívida em fevereiro de 2026, o maior índice da série histórica iniciada em 2010.
O número de inadimplentes já chega a 81,7 milhões de pessoas, e o cartão de crédito é apontado como a principal fonte de endividamento por 85% das famílias.
O presidente Lula pediu ao Ministério da Fazenda e ao BC (Banco Central) ações para conter o avanço do endividamento e reduzir o custo do crédito rotativo. As discussões estão em andamento, mas ainda não há data oficial de lançamento. Confira abaixo o que se sabe até agora.
O que está sendo discutido?
Na última segunda-feira (30 de março), o ministro Dario Durigan (Fazenda) se reuniu com representantes da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), ABBC (Associação Brasileira de Bancos), Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), Zetta, Acrefi e dos bancos Itaú e Banco do Brasil para discutir o formato do novo programa.
A proposta em análise prevê a consolidação de dívidas de cartão de crédito, com faixas de desconto que variam conforme a renda do devedor e o nível de garantia oferecido pelo governo por meio do FGO (Fundo Garantidor de Operações). Quanto maior for a cobertura do fundo, maiores seriam os descontos concedidos ao consumidor.
Diferenças em relação ao Desenrola original
O Desenrola Brasil, lançado em julho de 2023, renegociou cerca de R$ 50 bilhões em dívidas de pessoas físicas e utilizou uma plataforma centralizada com leilões intermediados por instituições de análise de crédito.
O novo modelo, porém, prevê um formato mais simples e ágil: cada banco fará a renegociação diretamente com seus clientes, sem a necessidade de plataformas intermediárias ou leilões. Isso acelera a implementação, já que o Desenrola original levou meses para desenvolver sua estrutura tecnológica.
Outra diferença é o uso do Open Finance, iniciativa do Banco Central que permite o compartilhamento de dados financeiros entre instituições. A ideia é facilitar a transferência de crédito mais caro para linhas com juros menores.
Até o momento, apenas a Caixa Econômica Federal habilitou a tecnologia para essa finalidade e, em testes com funcionários, conseguiu reduzir a taxa média de crédito pessoal de 26% para 12% ao mês.

Quem poderá ser beneficiado?
Embora os critérios definitivos ainda não tenham sido divulgados, as discussões indicam que o foco será a população de baixa renda endividada com cartão de crédito. No Desenrola original, a faixa 1 atendeu devedores com renda de até dois salários mínimos ou inscritos no CadÚnico (Cadastro Único), com dívidas de até R$ 5 mil. A expectativa é que o novo programa siga uma lógica semelhante, mas com alcance potencialmente ampliado.
Dados da CNC mostram que 38,9% das famílias com renda de até três salários mínimos estão com contas em atraso, o que reforça a necessidade de ações direcionadas a esse público.
Medidas contra reendividamento
Uma das preocupações do governo é evitar que os consumidores voltem a se endividar logo após a renegociação, como aconteceu com parte dos beneficiados pelo Desenrola original.
Por isso, está sendo discutida a possibilidade de impedir que o devedor tome novos créditos por um período após a renegociação, funcionando como uma trava temporária contra o reendividamento.
Também circulam discussões sobre eventuais medidas relacionadas às apostas esportivas (bets), diante do diagnóstico de que, na população de baixa renda, as apostas podem estar contribuindo para o aumento do endividamento e da inadimplência bancária.
Lei do Superendividamento
O novo programa também se conecta com a Lei do Superendividamento (Lei nº 14.181/2021), que alterou o Código de Defesa do Consumidor para permitir ao trabalhador renegociar de uma só vez todas as suas dívidas de consumo, incluindo empréstimos bancários, compras a prazo e serviços de prestação continuada, como contas de água e luz.
Para isso, é preciso demonstrar a impossibilidade de quitar os débitos sem comprometer o chamado mínimo existencial — a parcela da renda necessária para custear necessidades básicas.
Quando o programa deve ser lançado?
Ainda não há data oficial para o lançamento. Os estudos estão sendo conduzidos pelo Ministério da Fazenda, com contribuições do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.
A proposta ainda aguarda aval do Tesouro Nacional, da PGFN (Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional) e da Casa Civil. Membros do governo também indicaram que pretendem batizar o novo programa com um nome diferente de “Desenrola”, embora o formato seja semelhante.
O cenário político também influencia o andamento: como 2026 é ano eleitoral, o desenvolvimento do programa leva em consideração as restrições da Lei das Eleições para o lançamento de novos programas sociais.
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